“A poupança perde pra inflação” virou quase um dogma repetido sem checar a conta. A verdade é mais específica: depende do nível da Selic no momento, e mesmo quando a poupança consegue ficar à frente da inflação, ela ainda perde feio pra praticamente qualquer outra opção de renda fixa disponível hoje.

Neste artigo, vamos abordar:

  • Como funciona a regra de rendimento da poupança
  • Se a poupança está rendendo mais ou menos que a inflação agora
  • Por que essa conta já foi bem pior em outros momentos
  • Rendimento real x rendimento nominal, e por que essa diferença importa
  • Por que “ganhar da inflação” não é a régua certa pra comparar investimentos
  • O que fazer com o dinheiro que hoje está parado na poupança

Como funciona a regra de rendimento da poupança

A regra da poupança muda conforme o nível da Selic. Quando a Selic está acima de 8,5% ao ano, como é o caso hoje, a poupança rende 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR), o que equivale a aproximadamente 6,17% ao ano. Quando a Selic está em 8,5% ao ano ou abaixo, a regra muda: a poupança passa a render 70% da Selic mais a TR, um valor que cai bastante em cenários de juros baixos.

A poupança está rendendo mais ou menos que a inflação agora?

Com a Selic em 14% ao ano, a poupança está na primeira regra, rendendo cerca de 6,17% ao ano. O IPCA acumulado em 12 meses está em 4,44%. Fazendo a conta simples, a poupança está sim rendendo acima da inflação atual, por uma margem de aproximadamente 1,6 ponto percentual ao ano em termos reais.

Ou seja, hoje, especificamente, a frase “poupança perde pra inflação” não é verdadeira. Mas essa conta muda completamente dependendo do momento econômico, e é aí que mora o problema de repetir a frase sem contexto.

Por que essa conta já foi bem pior

Em períodos de Selic muito baixa, como aconteceu em 2020 e 2021, quando a taxa básica chegou a 2% ao ano, a poupança caiu na segunda regra (70% da Selic mais TR) e passou a render bem menos que 6% ao ano, enquanto a inflação disparava por causa dos efeitos da pandemia. Nesses anos, quem deixou dinheiro parado na poupança perdeu poder de compra de forma bem visível, com rendimento nominal abaixo da inflação do período.

Esse histórico recente é a origem da desconfiança generalizada com a poupança, mesmo em momentos, como o atual, em que a conta específica dá resultado positivo.

Moedas organizadas em ordem crescente sobre superficie verde

Foto: Eleonora Vokueva / Pexels

Um exemplo numérico de 2021

Em 2021, com a Selic ainda em patamares baixos durante boa parte do ano (partindo de 2% e subindo gradualmente), a poupança operou pela regra dos 70% da Selic mais TR, rendendo bem abaixo de 6% ao ano. No mesmo período, o IPCA fechou o ano acumulando alta de mais de 10%. Quem deixou R$ 10 mil parados na poupança naquele ano terminou com um saldo nominal maior, mas com poder de compra real menor do que no início, uma perda visível e mensurável.

Esse é o cenário que fixou a ideia de que “poupança sempre perde pra inflação” no imaginário popular, mesmo sendo um cenário específico de Selic baixa, não uma regra permanente.

Como a regra dos 8,5% funciona na prática

O gatilho que muda a regra da poupança é simples: sempre que a Selic está acima de 8,5% ao ano, vale a regra fixa de 0,5% ao mês mais TR. No momento em que a Selic cai para 8,5% ao ano ou menos, a regra muda automaticamente para 70% da Selic mais TR, sem que o poupador precise fazer nada.

Isso significa que, se o ciclo atual de cortes de juros continuar e a Selic cair abaixo desse patamar, o rendimento da poupança despenca de uma vez, não aos poucos, o que pode reabrir a distância negativa em relação à inflação dependendo de como as duas taxas se movimentarem a partir daí.

Rendimento real x rendimento nominal

Rendimento nominal é o número que você vê no extrato, sem descontar a inflação. Rendimento real é o que sobra depois de descontar a inflação do período, ou seja, o quanto seu poder de compra de fato aumentou. A fórmula aproximada é: rendimento real = rendimento nominal menos inflação do período (o cálculo exato usa uma fórmula composta, mas essa aproximação funciona bem para taxas anuais moderadas).

Com poupança a 6,17% ao ano e IPCA a 4,44% ao ano, o rendimento real fica em torno de 1,6% ao ano positivo. É pouco, mas é positivo, o que já derruba a ideia de que a poupança “sempre” destrói poder de compra.

Por que “ganhar da inflação” não é a régua certa

O problema de julgar a poupança só pela inflação é que essa não é a comparação relevante pra quem tem outras opções de baixo risco disponíveis. Com a Selic em 14% ao ano, o Tesouro Selic rende bruto próximo dos 13,80% ao ano, mais que o dobro do rendimento nominal da poupança, com o mesmo nível de segurança (governo federal como garantidor) e liquidez diária.

A pergunta certa não é “a poupança ganha da inflação?”, e sim “a poupança ganha da melhor alternativa de mesmo risco disponível?”. E aí a resposta é quase sempre não, mesmo nos momentos em que ela está tecnicamente à frente da inflação.

O que fazer com o dinheiro parado na poupança

Migrar de poupança para Tesouro Selic ou um CDB de liquidez diária mantém o mesmo nível de segurança e liquidez que a poupança oferece, só que com rendimento consideravelmente maior. Não existe motivo técnico pra manter reserva de emergência na poupança quando essas alternativas estão disponíveis em praticamente qualquer corretora, sem taxa de abertura.

Quem quer entender melhor as opções antes de migrar pode começar por Como investir em renda fixa sendo iniciante, e usar a calculadora de inflação do Grana Lab pra visualizar exatamente quanto poder de compra um valor parado perde (ou ganha) em diferentes cenários e períodos.

A resistência de muita gente em sair da poupança costuma vir da praticidade: o dinheiro já está lá, vinculado à conta corrente, sem nenhuma etapa extra. Mas abrir conta em uma corretora para aplicar em Tesouro Selic ou CDB de liquidez diária costuma levar poucos minutos, é gratuito na maioria das plataformas, e o dinheiro continua com liquidez equivalente à da poupança, disponível em até um dia útil.

Conclusão

A poupança não está, neste exato momento, perdendo pra inflação. Mas essa vitória é pequena e não é garantida: já foi diferente em 2020 e 2021, e pode voltar a ser se a Selic cair para 8,5% ao ano ou menos. O ponto mais importante, independente da inflação, é que a poupança quase sempre rende menos que outras opções igualmente seguras e líquidas, o que já é motivo suficiente pra migrar.

Perguntas frequentes

A poupança está rendendo mais que a inflação hoje?

Sim, atualmente. Com a Selic acima de 8,5% ao ano, a poupança rende cerca de 6,17% ao ano, acima do IPCA acumulado em 12 meses, que está em 4,44%.

Por que a poupança já perdeu tanto pra inflação em outros anos?

Porque a regra de rendimento muda quando a Selic cai para 8,5% ao ano ou menos: nesse cenário, a poupança passa a render só 70% da Selic mais TR, um valor que ficou bem abaixo da inflação em anos como 2020 e 2021.

Mesmo rendendo acima da inflação, vale a pena deixar dinheiro na poupança?

Tecnicamente não. Outras opções com o mesmo risco e liquidez, como Tesouro Selic ou CDB de liquidez diária, rendem consideravelmente mais que a poupança nesse mesmo cenário de Selic alta.

Como calculo o rendimento real de um investimento?

De forma aproximada, subtraindo a inflação do período do rendimento nominal. O cálculo exato usa uma fórmula composta, mas a aproximação simples já dá uma boa noção do resultado.

Este conteúdo tem caráter educativo e informativo. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira, jurídica ou tributária. Veja nosso disclaimer completo.