Quem já conhece o Tesouro Selic costuma parar por aí, sem saber que o Tesouro Direto tem outros dois tipos de título, com lógicas bem diferentes: o Tesouro Prefixado e o Tesouro IPCA+. Cada um serve para um objetivo específico, e escolher o errado pro seu prazo pode significar perder dinheiro mesmo comprando um título do governo federal.

Neste artigo, vamos abordar:

  • Uma recapitulação rápida do Tesouro Selic
  • O que é o Tesouro Prefixado e quando ele faz sentido
  • O que é o Tesouro IPCA+ e por que ele protege seu poder de compra
  • O risco de vender esses títulos antes do vencimento (marcação a mercado)
  • Quando cada tipo de título faz mais sentido no seu planejamento
  • Como simular e comparar antes de investir

Recapitulando o Tesouro Selic

O Tesouro Selic é um título pós-fixado que acompanha a taxa Selic dia a dia, com liquidez diária garantida pelo Tesouro Nacional. É o mais indicado para reserva de emergência, exatamente porque seu valor não oscila de forma relevante entre um dia e outro. Se você ainda não conhece os detalhes desse título, vale revisar em Tesouro Selic ou CDB: qual vale mais a pena antes de seguir com os outros dois tipos.

O que é o Tesouro Prefixado

No Tesouro Prefixado, a taxa de rentabilidade é travada no momento da compra e não muda até o vencimento, independentemente do que acontecer com a Selic depois. Se você compra um título a 12% ao ano, vai receber exatamente essa taxa se levar até o vencimento, mesmo que a Selic suba ou caia nesse período.

Esse tipo de título faz sentido quando você acredita que os juros vão cair no futuro: travar uma taxa prefixada hoje garante que você continue recebendo aquele retorno mesmo que o cenário de juros mude para pior depois. É o oposto do Tesouro Selic, que sobe e desce junto com a taxa básica.

O que é o Tesouro IPCA+

O Tesouro IPCA+ paga uma taxa fixa mais a variação da inflação (IPCA) no período. Se o título paga “IPCA + 6%”, por exemplo, seu dinheiro rende a inflação do período mais 6% ao ano de juro real, garantindo que o poder de compra do valor investido não seja corroído pela inflação.

É o título mais indicado para objetivos de longo prazo, como aposentadoria, porque protege contra o maior risco de quem guarda dinheiro por décadas: a inflação comer o valor real do patrimônio, mesmo que o número em reais pareça estar crescendo.

Marcação a mercado: o risco de vender antes do vencimento

Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+ têm um risco que o Tesouro Selic praticamente não tem: a marcação a mercado. O preço desses títulos varia todos os dias no mercado secundário, subindo quando os juros futuros caem e caindo quando os juros futuros sobem, mesmo que nada tenha mudado na sua taxa contratada.

Isso significa que, se você vender um Tesouro IPCA+ ou Prefixado antes do vencimento, pode receber mais ou menos do que esperava, dependendo do cenário de juros no momento da venda. Quem segura até o vencimento recebe exatamente a taxa contratada, sem nenhum efeito da marcação a mercado no resultado final.

Blocos de madeira com seta ascendente representando crescimento

Foto: Pexels

Exemplo prático: Prefixado x IPCA+ no longo prazo

Imagine dois cenários pra um objetivo de 10 anos, com R$ 10 mil aplicados uma única vez. No primeiro, você trava um Tesouro Prefixado a 12% ao ano. No segundo, aplica em um Tesouro IPCA+ a “IPCA + 6%” ao ano.

Se a inflação média dos próximos 10 anos ficar em torno de 4,5% ao ano, o IPCA+ renderia próximo de 10,5% ao ano nominal, menos que o Prefixado no papel. Mas se a inflação surpreender pra cima, subindo pra uma média de 7% ao ano, o IPCA+ passaria a render 13% ao ano nominal, superando o Prefixado, que continuaria travado nos mesmos 12%.

Esse exemplo mostra o que está por trás da escolha: o Prefixado aposta numa taxa fixa que pode ficar boa ou ruim dependendo do que a inflação fizer depois, enquanto o IPCA+ garante que, aconteça o que acontecer com a inflação, você sempre vai ficar 6 pontos percentuais acima dela.

Erros comuns na hora de escolher o tipo de título

  • Comprar Prefixado ou IPCA+ pra reserva de emergência: por causa da marcação a mercado, um resgate de urgência pode sair no pior momento possível, com prejuízo em relação ao valor aplicado
  • Ignorar o prazo de vencimento na hora de escolher: um Tesouro IPCA+ com vencimento em 2045 não é o mesmo produto que um com vencimento em 2029, mesmo que ambos sejam “IPCA+”; quanto mais longo o prazo, maior a oscilação de preço no meio do caminho
  • Confundir juro real com rentabilidade total: “IPCA + 6%” não significa 6% de rendimento total, significa 6% além da inflação, que costuma ser a parte mais relevante do retorno em prazos longos
  • Achar que Prefixado é sempre pior que pós-fixado: quando a expectativa é de queda de juros, travar uma taxa prefixada alta hoje pode superar um pós-fixado que vai perder força conforme a Selic cair

Quando cada tipo faz mais sentido

  • Tesouro Selic: reserva de emergência e qualquer dinheiro que você pode precisar resgatar sem aviso prévio
  • Tesouro Prefixado: objetivos com data definida, em que você pode segurar até o vencimento, e cenários em que a expectativa é de queda de juros à frente
  • Tesouro IPCA+: objetivos de longo prazo, como aposentadoria ou a compra de um imóvel daqui a muitos anos, em que proteger o poder de compra importa mais que maximizar o retorno nominal

Muita gente combina os três tipos na carteira, usando cada um para o objetivo ao qual ele é mais adequado, em vez de escolher só um título pra tudo.

Como simular e comparar antes de investir

Antes de escolher entre os tipos de Tesouro Direto, vale entender também como ele se compara a outras opções de renda fixa pós-fixada, como o CDB. A calculadora de Tesouro Selic do Grana Lab ajuda a simular o rendimento da opção mais líquida antes de decidir quanto do seu dinheiro faz sentido deixar em Prefixado ou IPCA+, que exigem mais paciência.

Quem ainda está organizando os primeiros investimentos pode revisar os conceitos básicos em Como investir em renda fixa sendo iniciante antes de se aprofundar nos diferentes tipos de Tesouro Direto.

Conclusão

O Tesouro Direto não é um produto único, são três lógicas diferentes dentro do mesmo guarda-chuva. Selic para liquidez, Prefixado para quem aposta em queda de juros e pode esperar até o vencimento, e IPCA+ para quem quer proteger o dinheiro da inflação no longo prazo. Escolher o tipo certo pro seu objetivo importa tanto quanto escolher investir no Tesouro Direto em primeiro lugar.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+?

O Prefixado trava uma taxa fixa até o vencimento. O IPCA+ paga uma taxa fixa mais a variação da inflação do período, protegendo o poder de compra do valor investido.

Posso perder dinheiro no Tesouro Direto?

Se segurar até o vencimento, não, você recebe exatamente a taxa contratada. Se vender Prefixado ou IPCA+ antes do vencimento, o preço de venda pode ser menor que o valor investido, dependendo do cenário de juros no momento (marcação a mercado).

Tesouro IPCA+ vale a pena para reserva de emergência?

Não é indicado. A marcação a mercado pode fazer o valor de resgate cair justamente num momento ruim, então reserva de emergência deve ficar no Tesouro Selic, que tem liquidez diária sem esse risco.

Como sei qual taxa está sendo oferecida hoje?

As taxas de Tesouro Prefixado e IPCA+ mudam diariamente conforme o mercado. O site oficial do Tesouro Direto mostra as taxas atualizadas de todos os títulos disponíveis para compra.

Dá pra vender Tesouro Prefixado ou IPCA+ antes do vencimento?

Sim, o Tesouro Nacional garante recompra diária de todos os títulos, mas o preço de venda segue a marcação a mercado do dia, que pode estar acima ou abaixo do valor que você pagou.

Existe imposto sobre Tesouro Prefixado e IPCA+?

Sim, incide a mesma tabela regressiva de Imposto de Renda usada no Tesouro Selic e no CDB, de 22,5% em resgates de até 180 dias até 15% acima de 720 dias, além da taxa de custódia da B3.

Este conteúdo tem caráter educativo e informativo. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira, jurídica ou tributária. Veja nosso disclaimer completo.